Sunday Morning

Domingo de manhã é uma expressão que tem se tornado muito usada nos últimos tempos, cada um com sua livre interpretação dela, mas que nunca perde a magia. No momento o domingo de manhã tem cheiro de terra molhada, pela janela acompanho a chuva enquanto me remexo nos lençois. O dia se alonga ao som de Cícero, acalantando meus ouvidos e pensamentos com suas notas. No pensamento você, preocupações, sonhos e muita preguiça envolvida no processo.

O encanto dos domingos talvez esteja na falta de expectativa que são colocados neles, como se fosse um dia livre pra se permitir ser exatamente você. Sem muitos deslumbres. Sem máscaras ou toneladas de maquiagem. Com permissão pra usar o cabelo desgrenhado. Me pergunto porque insistimos em nos dar apenas esse dia, quando é tão apreciado pelo público geral. Porque contrário ao dia oficial da preguiça, as relações humanas são tão cheias de expectativas. Porque viver sobre tantas camadas, tantos segredos, tantas dúvidas e apenas esperando por alguém que venha desvendar tudo isso. Como se humanos viessem com bola de cristal acoplados à suas cabecinhas ocas. Se nos permitíssimos ser mais domingos, talvez fôssemos mais felizes.

Lá fora a chuva parou, aqui dentro o disco do Cícero mudou. O tédio só aumenta a medida que as horas se passam. É possível ouvir o balanço da rede e a respiração pesada do cachorro dormindo calmamente. Na reflexão que me foi permitida nesse dia percebo o quanto já esperei que me desvendassem. Que chegassem de mansinho, me dessem um abraço quentinho e me dissessem baixinho o que realmente sou. Posso afirmar que de mansinho chegou, não alguém mas a certeza da confusão interna que sou. Nem a bola de cristal poderia prever tal coisa. Pelo menos estou me conhecendo, pra um dia oferecer a alguém mais do que um céu nublado. Para dizer a ela que as tempestades aqui ocorrem com mais frequências do que eu gosto de admitir, mas também há arco-irís por aqui. Dizer a essa pessoa que há algo de belo nessa confusão. Dizer a mim mesma que não é desperdício de tempo ser a versão mais fiel de você mesma, não é bobagem ter seu tempo, que é necessário domingar-se.

Engraçado é que a chuva voltou ao mesmo tempo em que Coisa Linda do Tiago Iorc começou a tocar na rádio. Destino ou não complementou bem a magia do domingo de chuva. Deixou ele com um ar pessoal, único, só meu! Me lembrarei disso mais tarde, como meu domingo tedioso se tornou um dia esquisitamente especial. Talvez você deva lembrar disso também, porque o domingo não é muito bom de memória. Assim como ele não cria expectativas, ele não espera de você promessas e só cabe a nós perpetuar a memória desse dia notável. E assim como o Marron 5 canta em Sunday Morning, as nuvens estão nos envolvendo num momento inesquecível, sim esse dia será inesquecível!